O negócio começou pra valer aqui no Brasil ainda nos anos 30, quando o país ainda era patriarcal e agrário. Nessa época a vida era boêmia, tendo como melhor saída noturna as grandes serestas e prostíbulos com shows ao vivo, onde músicos se apresentavam com todo o aparato indumentário de um cafajeste ou de um malandro urbano, quando não estavam em noitadas investiam numa rica musicalidade e sentimentalismo para suas canções. Essa cultura durou até o final dos anos 60 por não ter sido intitulada como aposta das TV’s que surgiam rapidamente no centro do país, que se moldaram à grade de programação nos padrões gringos (tidos como sucesso garantido), assim a música de temática “romântica e cafajeste” saiu do centro brasileiro e partiu para as camadas mais populares como o norte do país, o que virou desprezo logo em seguida pelas demais regiões, ainda mais quando em 1962 o famoso produtor/artista Carlos Imperial classificou o gênero como “cafona” e de “mau gosto”.
Paulo Sérgio, quem disse que o rei é o Roberto?
A partir daí os cantores de brega se dividiram, e passaram a se auto-intitular MPB ou a onda beatlemania brasileira Jovem Guarda, o que era na verdade uma jogada marqueteira das gravadoras CBS, Copacabana e EMI e conseqüentemente foi adotada pelas demais. Até esse momento, cantores como Roberto Carlos e Belchior já eram sucessos. Pra ter uma idéia de popularidade, Paulo Sérgio (morto em 1980 por um derrame cerebral) chegou a vender 8 milhões de discos em 15 lançados em sua curta carreira e o cantor Baltazar, em meados de 70, lançou o LP “Se ainda existe Amor” e em seis meses já contabilizavam 1 milhão e meio de exemplares vendidos, ao todo foram mais de 7 milhões.
Quando essa fórmula se transformava em sucesso absoluto veio a perseguição da Ditadura Militar (2),, classificando o gênero como instrumento de alienação social, o cantor Odair José é um dos artistas brasileiros com o maior número de músicas vetadas pelo governo ditatorial, mesmo assim ainda conseguiu emplacar hits como a polêmica “Pare de tomar a Pílula” e “Eu Vou Tirar Você Deste Lugar’, que era um confissão de um homem apaixonado por uma mulher de cabaré, o que geraria revolta numa sociedade em que não se podia falar claramente sobre sexo e profissões subversivas (3).

os caras do brega – o fim
Nos anos 80 o brega sertanejo toma lugar nas rádios, deixando a maioria dos cantores consagrados confinados ao ostracismo. O esquema de duplas caipiras e um violão com acordes abertos virou febre e começou a ser chamado de “brega aceitável”, mudando todo o esquema de vestimenta, chavões e conduta social criada pelos artistas bregueiros. As novelas da rede Globo tinham cada vez mais audiência, o que possibilitou uma série de tendências pós-brega sem ter um vínculo real com o conceito do gênero, dando espaço para várias vertentes que surgiram nos anos subseqüentes (4).
Um exemplo disso é o que acontece da década de 80 em diante com uma nova jogada publicitária – dessa vez incluindo políticos como José Sarney (MA) e Antonio Carlos Magalhães (BA) e a parte governista beneficiada pela então quase extinta ditadura militar – criou-se o termo “brega moderno”, com o conceito mais plurarista e aceitável do original, várias concessões foram entregues para aliados políticos do governo, que obedeciam a grade musical já estabelecida. A partir desse ponto o gênero se reinventa e novas vertentes ganham gosto popular como o axé-music, o funk carioca e o pagode romântico (5), que nada mais era que a mistura entre a vida lúdica do sambista carioca e o estresse urbano vindo de São Paulo.
Até hoje é comum falar do gênero e cair no conceito de canções com pouco refinamento, dando a seus bregueiros tons pejorativos de cafona, deselegante e um adjetivo certo para mau gosto. Mas depois a gente conversa sobre o cenário atual desse ritmo brasileiro, ainda tem muita coisa rolando.
Referências Bibliográficas.
(1) Almanaque da Música Brega, de Antonio Carlos Cabrera. Editora Matrix.
(2) Nada será como Antes: MPB Anos 70: 30 Anos Depois, de Ana Maria Bahiana. Editoria Senac.
(3) Eu Não Sou Cachorro Não – Música Popular Cafona e Ditadura Militar, de Paulo Cesar de Araújo. Editoria Nova Cultura.
(4) http://musicadasantigas.blogspot.com
(5) http://www.bregapop.com
*texto originalmente publicado na Revista Grifo (nº2), Cuiabá/MT.








