#003: A força mutatória do Power Pop

O pop se resume a qualquer musica que atingiu grandes proporções, certo?

Embora seja de praxe um gênero ir se moldando com o passar dos anos para se manter na indústria do entretenimento, o Power Pop talvez seja o que conseguiu fazê-lo com maior eficiência. Surgido no início da década de 60, conseguiu se transformar e agüentar o Progressivo, o Hard Rock e o Punk de 70, as danceterias, os sintetizadores e o Metal farofa de 80 e ainda teve fôlego para aguentar aquele short colado dos anos 90 para finalmente # depois de quatro mutações # ser a célula principal do Indie e duvide quem quiser: a força motora de tudo o que está rolando por aí.

Em 60 o rock completava dez anos de existência e rapidamente havia se tornado popular através das rádios e dos programas na TV. Com isso o gênero passou a ser visto como nicho e não foi dificil perceber que esse novo “micro-mercado” já dava indícios de que precisava se reiventar para se tornar grande. As bandas inglesas dessa época (mais ou menos 1961/62) correram e desenvolveram diferentes tendências e técnicas para atingir as grandes vendagens dos seus discos, algumas se tornaram populares, outras nem tanto, mas nessa época surgiram três modos de se fazer música popular (porque não pop?)

Pete Townshend diz “Power Pop é o que tocamos” em 1967

A primeira era baseada em melodias dançantes e com riffs marcantes, bandas como The Who e toda a galera que era especialmente influenciada pela cultura Mod abraçaram essa pequena vertente que tinha a fama de obter a crueza pop # um flerte com o acid rock, que era o que vendia na época #. A segunda – e não menos popular – foi a de músicas que tinham em sua estrutura com mais riffs executados pela guitarra do que leads, mais acordes do que melodias. Bandas como The Monkees e os discos Rubber Soul (65) e Revolver (66) – dos Beatles – foram os principais representantes desse tipo de música pop. A terceira de que se tem notícia foi o que posteriormente foi chamado de “jangle guitar“, uma técnica baseada no som limpo e no uso de acorde abertos – claro, nem pensar em usar pestanas – e as palhetadas em sua maioria deviam ser tocadas lentamente. Embora muitas bandas tenham adotado essa técnica, The Byrds é considerada a precursora. Todas esses três caminhos que o Pop se direcionava tinham semelhanças em comum, sempre eram apresentadas com fortes melodias, grande numeros de harmonias vocais, acordes econômicos e o mínimo possível de Instrumentais solos. A junção desses fatores e das três sub-vertentes fez com que o guitarrista do The Who, Pete Townshend – numa entrevista cedida em 1964 – intitulasse a “onda” como Power Pop, que usou o termo “simplesmente” para definir uma contagiante progressão de acordes melódicos e poderosos de uma de suas canções.

Por estar em constante mutação o Power Pop demorou toda a década de sessenta para definir seu alicerce e criar consistência, por causa desses dois fatores o gênero se tornaria um fenômeno no início de 70. A postura neutra e de fácil acesso mercadológico fez com que o modo power de tocar o Pop fosse direto para a América, que encontrou e se misturou com os ritmos da moda por lá ocmo o Acid rock e o Hippie. Mas o gênero pegou os EUA não por causa do sua fórmula pop de fácil acesso, mas sim pelo fato de que qualquer país do mundo estava se preparando para a segunda invasão britânica depois de bandas como The Beatles, Elvis Presley, Yarbirds, Rolling Stones, The Animals, The Kinks, The Dave Clark Five, Gerry & The Pacemakers, porém, para surpresa de todos, essa segunda invasão britânica só aconteceria 30 anos depois com o Brit-Pop. O resultado dessa ida aos EUA foi o aparecimento de bandas como Raspberries e Stories, as primeiras bandas americanas do gênero a explodir no seu páis, mas que foram fortemente influenciadas por bandas britâncias como Boo Radleys e The Moody Blues. Nessa época a banda que atingiria as maiores proporções era a Badfinger, banda galesa que na época assinou com a Apple (diz a lenda que a pedido dos Beatles) e começou a circular o mundo, meses depois o business americano tinha que entrar na briga e logo providenciaram o aparecimento de bandas como Blue Ash, de Ohio, e o Big Star, do vocalista e guitarrista Alex Chilton, que recriou o uso de suas guitarras em texturas chamadas “ultrapessoais com melodias dignas dos melhores momentos de Lennon e McCartney”, dizia a crítica

Alex Chilton, primeiro da direita para a esquerda, a frente da britânica Big Star

No final de 70 o Power Pop tinha ganhado mais dinamismo com a criação de melodias com mais eletricidade e mesmo comumente sendo confundido como um Revival do Mod ou até mesmo com o Glam, seguia conquistando um número cada vez maior da fatia do mercado já disputando com o Heavy Metal e o Progressivo, quando todo mundo foi pego de surpresa: o nascimento do Punk (eu adoro fazer esses dramas). Mas se engana quem acha que ele tenha se desvairado para os cabelos moicanos cor-de-rosa, ao invés, correu para uma outra onda que já tinha um pequeno espaço no início de 80: A new Wave.

No final de 70 o mundo conheceu sua “Nova Onda” – e tudo mudou

Esse escoamento para a New Wave se deu pelo fato do Power Pop ser embrionariamente ligado ao Glam Rock – outro sub-gênero que se juntou a “Nova Onda” – e que aplicou a estética do figurino e a concepção visual do palco à esse novo gênero, que ainda correu boa parte do mundo e se expandiu criando outros sub-gêneros nas décadas seguintes. O Pós-Punk também se atrelou e bandas como Cheap Trick, The Knack, The Romantics, 20/20 e Elvis Costello & The Attractions foram as principais representantes. Mas o início da terceira mutação do gênero deu-se com a aparecimento de uma banda novaiorquina chamada Blondie, que juntou os sub-gêneros New Wave/Power Pop/Punk e representou toda a mudança que o rock estava sofrendo na época após a chegada dos sintetizadores. Desse momento a coisa só ía mudar de rumo novamente com o advento do Rock Alternativo poucos anos mais tarde e com as grandes produções de 90.

A partir da explosão do Rock Alternativo (nos anos 90 também chamado de Pós-Grunge) surgiram bandas que misturaram o Power Pop com essa nova estética musical, essas novas vertentes se chocaram e serviu como lado antagônico ao tamanho dos investimentos que as gravadoras injetavam em bandas como Queen, Guns and Roses e Nirvana, que acabou colocando bandas que apostavam no conceito Power Pop numa posição modesta no mercado. Em meados da década de 90 e indo até os anos 00, o gênero partiu para o underground midiático e uma série de gravadoras independentes como a Not Lame Recordings, Kool Kat Música e Jam Recordings – especializada no gênero – foram criando um novo campo para o sub-gênero até que em 94 a banda Weezer lança o Álbum Azul e é comercialmente bem sucedida e, mesmo emplacando apenas o hit “Buddy Holly” (veja o video), abriu espaço para outros grupos do mesmo segmento como The Cardigans, Pavement, Blur, Placebo e Wannadies, que receberam críticas positivas dos grandes veículos, dando assim vasão mainstrean para o pop que circulava o underground. O resultado foi o nascimento oficial do termo indie.

“Buddy Holly”, do Weezer – abriu uma parte do mercado para bandas alternativas

Mesmo que ao longo de todo esse tempo o gênero tenha sido soterrado por outras tendências, o Power Pop sempre ressurgiu com força total em uma nova onda e tomava de assalto uma parcela do mercado. Para se ter uma idéia, ao redor do mundo existem uma série de publicações especializadas como as americanas Yellow Pills e Audities, que além de estarem ligadas no surgimento de novas bandas, sempre revive os momentos cruciais do gênero ao longo da história do rock, relembrando momentos lendários e entrevistando bandas que pertenceram a época.

Fountains of Wayne – de 1995 – figura entre as principais do gênero nos EUA

Dentre as principais bandas atuais os destaques são Gigolo Aunts, Material Issue, Greenberry Woods, Vandalias e The Blow Pops, Bill Lloyd, Chris Von Sneidern, Brian Leach, Jim Basnight e A Man Called E.

Aqui em nosso país bandas como Pato Fu, Kid Abelha, Os Brasas e Paralamas do Sucesso garantem a cota brasileira juntos dessas outras bandas, porém, mesmo longe do mercado mundial, foram esses grupos que desenvolveram o gênero aqui no Brasil. Junto deles ainda podemos citar bandas como Replicantes, Pipodélica e Ludov.

Linha do Tempo:

1 Response to “#003: A força mutatória do Power Pop”


  1. 1 Pedro Pracchia outubro 19, 2008 às 5:41 pm

    # ser a célula principal do Indie e duvide quem quiser: a força motora de tudo o que está rolando por aí.

    Não há como duvidar desse resgate de uma transgressão como forma de mercado. Indie (independente?) hoje é ser trilha de propaganda de operadora de celular.

    Denso e consistente como poucos man. Lindo post.


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