Arquivo para janeiro \22\UTC 2010

“Um” Emicida tem espaço no mercado brasileiro?

Acompanhar as tendências musicais americanas é algo que o brasileiro se acostumou desde que um executivo teve a idéia de criar a Jovem Guarda. O que bomba lá, daqui a pouco chega aqui. E quando chega se espalha e vários outros artistas nascem, conquistando os fãs daquele determinado segmento e consequentemente preenchendo uma nova coluna no mercado brasileiro, que agora tem seu representante nacional – coisas de mercado. Foi assim com os Secos e Molhados, que em 1973 tocava um glam rock já ultrapassando na Inglaterra. Também com o RPM e Paralamas do Sucesso, com imitações do “arena rock oitentista” e do jeito regueiro do The Police. E ainda tem o punk, o grunge, a música eletrônica e a lista vai até Mallu Magalhães, e continua….

Antes de mais nada digo que esse “modos operandis” não é algo maléfico e único do Brasil. Na verdade, muito do que se produz por aqui são de fato apenas reflexos do mercado internacional e o que está fora disso dificilmente consegue sucesso comercial. Ou seja: se uma banda não está no modelo “pop” dificilmente terá uma vida longa pela falta de estrutura (leia-se grana) que o mercado não-comercial tem. Isso não quer dizer que o artista está fadado a morrer na praia porque a internet dá muitas oportunidades para quem tem musicas boas, mas vai dar um duro danado. E isso não é exclusivo da música, mas também do teatro, cinema, esporte, musica clássica e tudo quanto é arte.

O E.M.I.C.I.D.A está inserido nos dois conceitos. Ao mesmo tempo que se lambuza das vertentes do hip-hop que a pouco tocavam nas rádios norte-americanas, ainda sim consegue colocar algo de original em sua figura simbólica. É claro que ele ainda é estreante e tudo que fez até hoje talvez não corresponda a nada do que virá pela frente, mas seu disco sem gravadora de estréia, Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe, toma de assalto uma lacuna vazia no hip-hop mainstream brasileiro desde que Marcelo D2 se tornou mais corporativo, o MVBill se transformou num artista assistencialista e o Sabotagem foi assassinado. O publico precisava de outra coisa, e essa outra coisa tinha que vir tímida, rasteira e com uma idéia muito da original.

Partimos então para uma rápida análise do hip-hop e sua representação social nos dias de hoje. A auto-suficiência, a sobrevivência e o sentimento de viver a margem (e excluído) de uma sociedade elitizada são a tônica de qualquer artista do gênero. Para isso, utilizam termos como “guerrilha urbana” e “caos” como um resumo da atual situação social, mesmo que essa não seja a real vivência do seu cotidiano. É o que Simon Reynolds – crítico musical inglês que “descobriu” a cena grime – chama de “individualismo patológico”. Isso é um resquício da trajetória marginal do ritmo, que se solidificou nas camadas de menor renda e se isolou socialmente como forma de sobrevivência. Algo semelhante do que ocorreu no nascimento das favelas brasileiras.

Esse conceito faz com que as músicas fiquem em torno desde mesmo tema socialista, de que juntos conseguiremos quebrar o sistema que exclui o negro e o pobre. Isso não nos soa estranho: Nos EUA, país que tem em sua maioria negros, essa temática ainda está presente (e bem forte) na cultura hip-hop. De vez em quando, este estereótipo é combatido por quem se formou nesta escola, a exemplo, o rapper Mano Brown, que junto com seu grupo Racionais Mcs se tornou uma unanimidade aqui no país. Recentemente foi capa da edição brasileira da Revista Rolling Stone com a tentativa de mudar sua imagem de “música dos renegados”. Isso nos leva a crer que o hip-hop brasileiro vive um dilema: permanecer como uma música de terceiro mundo, sendo vítima das ruas e repetindo que o sistema foi criado exatamente para ser contra seu modo de vida ou se estabelece como mercado, profissionaliza seus mantenedores e explora as várias abordagens que o gênero por si só consegue flertar. Seria uma escolha difícil, já que falamos de auto-sobrevivência?

Bem, EMICIDA chegou nesse momento crucial. Primeiro que a história do garoto que cantava nos trens e vendia seu disquinho por míseros R$2 nas ruas de São Paulo chamou a atenção logo de cara, e esse mesmo garoto também tem uma longa história como Mc na impressionante marca de 11 vezes campeão consecutivo na batalha de MC’s da Santa Cruz e por 12 vezes a rinha de MC’s. A produção do seu disco ainda é caseira, mas isso não o desqualifica. Pelo contrário, intensifica o conceito da “rua marginal” de que falamos agora pouco. As letras fogem do incomum e não apenas falam do cotidiano numa cidade sitiada, mas sobretudo de esperança num estado natural próximo as estrelas e “então jamais vou conhecer o fim”, como ele mesmo diz na música Chuva de Mísseis.

Mas também há espaço para a Flora, da novela Favorita, interpretada por Patrícia Pillar. A figura da vilã da Rede Globo se tornou sinônimo popular da maldade e esse conceito também faz parte das letras de EMICIDA, que não soa panfletário. Com apenas um disco ainda é difícil prever em que direção a carreira do paulistano vai seguir, mas com certeza seu tom intimista não será afetado e sua veia “pop” natural se sobre sai pelo bom gosto e pelos assuntos que se relacionam ao senso comum. EMICIDA não é o único a utilizar desta temática, porém, está longe de se tornar um movimento. E nem precisa já que ele “lembra dos esquecidos e faz tudo por 100 real.”

O “hip-hop repentista” tem em sua gene a pretensão de sempre subir na vida: sobre voltar ao estado natural das coisas e sair dessa caricatura utópica pode ser um risco levando em conta o público já formado dessa vertente estereotipada. Sim, estou falando do grande público. Ao longo da história musical brasileira alguns artistas já fizeram esse caminho, mas EMICIDA nos dá uma visão atualizada desse cenário. E é o próprio cenário que irá absorvê-lo. O espaço está garantido até a segunda ordem.

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Lista Permanente de Vazamentos: Balanço 2009

Definitivamente quando um disco vaza a indústria perde, mas ganha em publicidade. A tal ponto que essa “falha” na distribuição um dia será ítem de suma importância na cartilha oficial numa estratégia de divulgação de um disco. No início de 2009 iniciamos um projeto de análise dos discos que vazariam durante o ano. A “lista Permanente de Vazamentos” acompanhou oito discos importantes que sem nenhuma explicação caíram na net da noite para o dia. E chegou a hora de escolher o vazamento mais importante do ano.

Como ninguém sabe de onde o fonograma saiu, até hoje ninguém nunca foi punido por um vazamento e ele pode acontecer com bandas de qualquer tamanho. Seja como o disco do John Frusciante, ex-Chilli Peppers, que foi gravado de forma caseira e depois de ser aque são diado por problemas com a prensagem, finalmente caiu na internet no meio de janeiro. Os feitos com uma grande produççao também não está imune ao vazamento e até mesmo o produtor-chefe Jay Z não segurou o seu The Blueprint 3 dos fãs, que divulgam seu disco pirateado aos quatro cantos do underground da rede.

O que acho importante analisar nestes vazamentos é o quanto isso ajuda na imagem do artista e na distribuição de sua música. Quando o Tonigth do Franz Ferdinand, vazou, os integrantes se sentiram lesados, queriam respostas e até chegou a provocar seus agentes e sua gravadora. A inglesa Lilly Alen não só se irritou com o vazamento do seu disco em fevereiro, que lutou contra a internet durante todo o ano de 2009, chegando inclusive a agredir sua gravadora, a poderosa EMI, e dizer que sua aposentaria estaria próxima. É claro que o vazamento trouxe publicidade, afinal, além daquela aventura do fã de baixar o disco e enviar para o amigo próximo, vários sites e jornais noticiam o vazamento. Jay Z já entendeu esse sistema e “adorou” o vazamento do seu disco e como ele mesmo disse: “Estou animado com a idéia de que as pessoas já vão ouvir o álbum”.

Todos esses discos foram importantes porque naquele momento o artista apresentava certa relevância em sua carreira e discografia. Mas nenhum vazamento foi comparado ao No Line on The Horizon, do U2. O décimo disco da banda Irlandesa foi o primeiro depois do [falado] contrato milionário com a produtora de shows e mega turnês Live Nation, e o disco é a base da maior turnê já feita por uma banda na história. Para você ter uma idéia, a divulgação da turnê foi tão bem amarrada que incluía dezenas de ações como livros, quadrinhos, bonecos e um show “surpresa” no alto do prédio da BBC, em Londres.

A super mega estrutura da turnê é tanta que vários problemas de deslocação e tumulto na mobilidade urbana já ocorreram, tendo muitas vezes a intervenção da prefeitura da cidade onde o show era agendada. No final das contas o disco é bom e além de ter figurado nas principais listas de melhores discos do ano em diversas revistas, re-colocou a banda em evidência e bateu o martelo quanto ao seu título de banda mais expressiva atualmente. Por isso, foi o vazamento mais importante do ano. Nos vemos em 2010.

Lista Permanente de vazamentos de 2009
04/01 – Years of Refusal – Morrissey (reveja post sobre o vazamento)
10/01 – Tonigth – Franz Ferdinand(reveja post sobre o vazamento)
14/01 – The Empyrean – John Frusciante(reveja post sobre o vazamento)
03/02 – It’s Not Me, It’s You – Lily Allen(reveja post sobre o vazamento)
18/02 – No Line on The Horizon – U2(reveja post sobre o vazamento)
29/07 – Hanburg – Arctic Monkeys(reveja post sobre o vazamento)
17/09 – Black Gives Way to Blue – Alice in Chains(reveja post sobre o vazamento)
31/09 – The Blueprint 3– Jay Z(reveja post sobre o vazamento)

O Homem que Engarrafava Nuves

Faz uns dois anos que o cinema brasileiro (leia-se produtores brasileiros) tem visto com bons olhos os artistas de nossa música nacional. Isso fez com que vários documentários se destacassem e nomes como Waldick Soriano, Wilson Simonal e Arnaldo Baptista voltasem à mídia. Mesmo com o pouco orçamento nas produções os documentários musicais tiveram boa aceitação, tanto de público quanto de jornalistas. E já começamos o ano com uma boa surpresa: O Homem que engarrafava Nuvens. A história de Humberto Teixeira, o doutor do baião, é contada não só pela ótica do artista sertanejo, mas também a sua figura política e sobretudo até onde seu legado vive na música brasileira. O filme ainda não Chegou em minhas mãos mas a tempos eu venho pesquisando sobre a vida do compositor e advogado e o seu “esquecimento” perante a classe musical brasileira era de incomodar. Não que esse filme vá mudar de fato esse quadro, mas pelo menos divulga um dos homens que levou o nome do Brasil para fora de nossas linhas, extrapolando os limites da música convencional e mostrando para todos o que é o Baião, inclusive para os brasileiros. O filme é dirigido por Lírio Ferreira.

Remember This Hit? #07: Lovefool – The Cardigans

O eletrizante Romeu e Julieta cheio de drogas e armas, estrelado por DiCaprio e Clarie Danes, lançado em 1996, conseguiu boa aceitação dos jovens não só pela ousadia de subverter uma historia Shakespeareana, mas também por sua trilha sonora inesquecível que incluía bandas recentes como Garbage, The Wannadies e a já mundial Radiohead. Mas nenhuma dessas chamou tanta a atenção que Lovefool, da banda sueca The Cardigans.

Os dois primeiros discos da banda já tinham colocado a vocalista Nina Persson e sua turma num patamar de prestígio no experimental pop do início de 90. Os hits Rise and Shine e Carnival dos dois primeiros álbuns ainda tocavam nas rádios da Europa e a banda – que se conheceu na faculdade – ainda tinha pouco mais de três anos de estrada. Mas o terceiro disco, First Band on the Moon, reservava uma música que marcaria para sempre a trajetória do grupo e os lançaria para o resto do mundo. “Vá em frente e me engane, diga que me ama” dizia a canção embalada por uma melodia fácil e que demonstrava a força da moda “pré-indie” que começava a se formar em 1996.

O clipe teve duas versões oficiais. Na primeira delas a banda está num galpão com pessoas estranhas. Nina aparece gravando a música num gravador de fita (que devia ser a ultimas geração em gravações caseiras na época) e um cara começa a escutá-la, uma mulher começa a fazer um stripper pra ele e chega um momento que você não entende nada do que está acontecendo. Na versão de número dois a vocalista está numa pequena ilha deserta colocando uma garrafa na água. Logo depois a banda aparece tocando no barco. E como o primeiro vídeo aparecem algumas coisas bizarras e incompreensíveis. Ao todo a banda tem seis discos gravados e não mais toca mais um indie-pop como nesta música, mas já passeou dentre outros gêneros como Trip Hop, Blues, Heavy Metal e Musica Clássica.

Algumas colagens juntando cenas do Filme Romeu e Julieta

Duetos #02: Freddie Mercury & Montserrat Caballé

Freddie Mercury nasceu 1946 na Tanzânia e recebeu o singelo nome de Faroukh Bommi Bulsara. Sendo educado na índia, lá começou seus estudos de piano clássico e canto lírico. Mudou-se com a família para Londres aos 18 anos e já sustentava o sonho de conhecer a soprano espanhola Montserrat Caballé, uma das maiores cantoras lírica do mundo, ao lado de “mitos” como Renata Tebaldi e Maria Callas. Porém se formou em design gráfico e permaneceu apaixonado pela arte e a estética.

Alguns anos depois aquele garoto magro que tinha ”pinta” de cabeludo entrou por acaso numa banda de rock e se tornou um dos melhores e mais glamourosos cantores de rock que o mundo já viu [segundo algumas listas definitivas] e ainda influenciou uma penca de vocalistas que surgiram em diante. Sua banda, o Queen, já tinha vendido mais de 300 milhões de discos e aquele negócio de tocar em estádios lotados já estava enchendo o saco. Freddie então se aventurou pela carreira solo, mas claro sem pensar em se desligar do seu quarteto original.

Sucesso de crítica e com boas vendagens, os discos solos preenchiam alguns “vazios” que Freddie tinha por não ter espaço para cantar óperas em sua outra banda, mas ele queria mais. E o “mais” se realizou em 1988 quando finalmente conseguiu gravar o disco Barcelona ao lado de seu exemplo platônico Montserrat Caballé, disco esse que até hoje causa um certo “choque” pela união atemporal de um cantor de rock com uma cantora de ópera. Logo depois do lançamento a dupla saiu em turnê com muita repercussão, mas logo o cantor voltou para a sua banda original e morreu tragicamente três anos depois, vítima da Aids. No ano seguinte, já em 1992, a cantora fez um dueto virtual com Freddie (que aparecia no telão) durante a abertura dos Jogos Olímpicos de Barcelona. Depois da parceria, muitos outros projetos com essa temática tentaram em vão ficar a sombra de Barcelona, que até hoje encanta na primeira audição.

2010 com tudo

Olá amigos estamos de volta!

Esse ano de 2009 foi diferente para a música brasileira. Mais projetos surgiram, bandas originais apareceram e o melhor de tudo: parece que a coisa está só começando. E começando estamos aqui de novo, em nosso segundo ano nas pesquisas musicais e de mercado.

Enquanto estive fora, na brisa da Chapada dos Guimarães, não atualizei o blog, fiquei com preguiça mesmo. Mas nesse tempo recebi o convite do Factóide, um ótimo blog sobre música eletrônica e cultura em geral para encabeçar uma coluna sobre Cultura Pop. E está ficando ótimo. Segue os Links:

Seria Marcelo Adnet o Nino do Castelo Ra-tim-Bum?
O Darth Vader está em Cuiabá. E já chamou o Chuck Norris!
Em 2010, Cauby Peixoto vai por um fim à discussão: Eu não sou gay!
E se o Frico Horvatich fosse para o Big Brother Brasil, em 3D?

Além disso, a Revista Rockpress (RJ) divulgou a lista dos melhores do ano. É o quarto ano consecutivo que participo.

MELHORES DISCOS NACIONAIS

01. Otto – Certa Manha Acordei De Sonhos Intranquilos
02. Daniela Mercury – Canibália
03. Zélia Duncan – Pelo Sabor do Gesto
04. André Valadão – Fé
05. Móveis Coloniais de Acaju – C_mpl_te
06. Renato Cohen – 16 Billion Drum Drum Kicks
07. E.M.I.C.I.D.A – Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe
08. Cidadão Instigado – Uhuuu!
09. Porcas Borboletas – A passeio
10. Ed Motta – Piquenique

Veja o restante no Link

Então é isso, vou correndo porque muita coisa aconteceu do início do ano pra cá. Vou escrevendo…


Carpatia

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