“Um” Emicida tem espaço no mercado brasileiro?

Acompanhar as tendências musicais americanas é algo que o brasileiro se acostumou desde que um executivo teve a idéia de criar a Jovem Guarda. O que bomba lá, daqui a pouco chega aqui. E quando chega se espalha e vários outros artistas nascem, conquistando os fãs daquele determinado segmento e consequentemente preenchendo uma nova coluna no mercado brasileiro, que agora tem seu representante nacional – coisas de mercado. Foi assim com os Secos e Molhados, que em 1973 tocava um glam rock já ultrapassando na Inglaterra. Também com o RPM e Paralamas do Sucesso, com imitações do “arena rock oitentista” e do jeito regueiro do The Police. E ainda tem o punk, o grunge, a música eletrônica e a lista vai até Mallu Magalhães, e continua….

Antes de mais nada digo que esse “modos operandis” não é algo maléfico e único do Brasil. Na verdade, muito do que se produz por aqui são de fato apenas reflexos do mercado internacional e o que está fora disso dificilmente consegue sucesso comercial. Ou seja: se uma banda não está no modelo “pop” dificilmente terá uma vida longa pela falta de estrutura (leia-se grana) que o mercado não-comercial tem. Isso não quer dizer que o artista está fadado a morrer na praia porque a internet dá muitas oportunidades para quem tem musicas boas, mas vai dar um duro danado. E isso não é exclusivo da música, mas também do teatro, cinema, esporte, musica clássica e tudo quanto é arte.

O E.M.I.C.I.D.A está inserido nos dois conceitos. Ao mesmo tempo que se lambuza das vertentes do hip-hop que a pouco tocavam nas rádios norte-americanas, ainda sim consegue colocar algo de original em sua figura simbólica. É claro que ele ainda é estreante e tudo que fez até hoje talvez não corresponda a nada do que virá pela frente, mas seu disco sem gravadora de estréia, Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe, toma de assalto uma lacuna vazia no hip-hop mainstream brasileiro desde que Marcelo D2 se tornou mais corporativo, o MVBill se transformou num artista assistencialista e o Sabotagem foi assassinado. O publico precisava de outra coisa, e essa outra coisa tinha que vir tímida, rasteira e com uma idéia muito da original.

Partimos então para uma rápida análise do hip-hop e sua representação social nos dias de hoje. A auto-suficiência, a sobrevivência e o sentimento de viver a margem (e excluído) de uma sociedade elitizada são a tônica de qualquer artista do gênero. Para isso, utilizam termos como “guerrilha urbana” e “caos” como um resumo da atual situação social, mesmo que essa não seja a real vivência do seu cotidiano. É o que Simon Reynolds – crítico musical inglês que “descobriu” a cena grime – chama de “individualismo patológico”. Isso é um resquício da trajetória marginal do ritmo, que se solidificou nas camadas de menor renda e se isolou socialmente como forma de sobrevivência. Algo semelhante do que ocorreu no nascimento das favelas brasileiras.

Esse conceito faz com que as músicas fiquem em torno desde mesmo tema socialista, de que juntos conseguiremos quebrar o sistema que exclui o negro e o pobre. Isso não nos soa estranho: Nos EUA, país que tem em sua maioria negros, essa temática ainda está presente (e bem forte) na cultura hip-hop. De vez em quando, este estereótipo é combatido por quem se formou nesta escola, a exemplo, o rapper Mano Brown, que junto com seu grupo Racionais Mcs se tornou uma unanimidade aqui no país. Recentemente foi capa da edição brasileira da Revista Rolling Stone com a tentativa de mudar sua imagem de “música dos renegados”. Isso nos leva a crer que o hip-hop brasileiro vive um dilema: permanecer como uma música de terceiro mundo, sendo vítima das ruas e repetindo que o sistema foi criado exatamente para ser contra seu modo de vida ou se estabelece como mercado, profissionaliza seus mantenedores e explora as várias abordagens que o gênero por si só consegue flertar. Seria uma escolha difícil, já que falamos de auto-sobrevivência?

Bem, EMICIDA chegou nesse momento crucial. Primeiro que a história do garoto que cantava nos trens e vendia seu disquinho por míseros R$2 nas ruas de São Paulo chamou a atenção logo de cara, e esse mesmo garoto também tem uma longa história como Mc na impressionante marca de 11 vezes campeão consecutivo na batalha de MC’s da Santa Cruz e por 12 vezes a rinha de MC’s. A produção do seu disco ainda é caseira, mas isso não o desqualifica. Pelo contrário, intensifica o conceito da “rua marginal” de que falamos agora pouco. As letras fogem do incomum e não apenas falam do cotidiano numa cidade sitiada, mas sobretudo de esperança num estado natural próximo as estrelas e “então jamais vou conhecer o fim”, como ele mesmo diz na música Chuva de Mísseis.

Mas também há espaço para a Flora, da novela Favorita, interpretada por Patrícia Pillar. A figura da vilã da Rede Globo se tornou sinônimo popular da maldade e esse conceito também faz parte das letras de EMICIDA, que não soa panfletário. Com apenas um disco ainda é difícil prever em que direção a carreira do paulistano vai seguir, mas com certeza seu tom intimista não será afetado e sua veia “pop” natural se sobre sai pelo bom gosto e pelos assuntos que se relacionam ao senso comum. EMICIDA não é o único a utilizar desta temática, porém, está longe de se tornar um movimento. E nem precisa já que ele “lembra dos esquecidos e faz tudo por 100 real.”

O “hip-hop repentista” tem em sua gene a pretensão de sempre subir na vida: sobre voltar ao estado natural das coisas e sair dessa caricatura utópica pode ser um risco levando em conta o público já formado dessa vertente estereotipada. Sim, estou falando do grande público. Ao longo da história musical brasileira alguns artistas já fizeram esse caminho, mas EMICIDA nos dá uma visão atualizada desse cenário. E é o próprio cenário que irá absorvê-lo. O espaço está garantido até a segunda ordem.

10 Responses to ““Um” Emicida tem espaço no mercado brasileiro?”


  1. 1 Gabriel Lucas janeiro 22, 2010 às 5:40 pm

    O interessante do Mixtape/Álbum do EMICIDA é que ele tem dois tipos distintos de música, aquela do rapper mais politizado, que critica a situação.

    E outras mais dançantes, que falam mais do cotidiano e que poderiam, ou melhor, poderão tocar em breve nas melhores casas noturnas da zona sul carioca.

  2. 2 Giovanna janeiro 23, 2010 às 12:03 am

    Olá,
    Gostei muito mesmoo do texto, porque reflete bem o estado atual do Rap no Brasil, creio que estamos mesmo em um dilema quando se fala em profissionalizar o Rap e seus mantenedores e outro dilema sobre como seria isso, mas acho que o ano de 2009 nos mostrou uma luz no fim do tunel e o ano de 2010 ja começou bem.
    Sobre o Emicida ele irá lançar um novo single agora di 24, como fã acredito que ele está no caminho certo para fazer sucesso e tocar mais pra frente em qualquer lugar assim como racionais fez um dia.
    Apenas discordo desse trecho abaixo do texto:

    [ EMICIDA não é o único a utilizar desta temática, porém, está longe de se tornar um movimento. E nem precisa já que ele “lembra dos esquecidos e faz tudo por 100 real.” ]

    Pelo simples motivo que ao meu ver ele nunca quis se tornar um movimento, e as pessoas que acompanham o seu trabalho sabe que ele lembra sempre dos esquecidos mas tudo tem seu preço, o tudo por 100 real ficou estranho.

    Noiz

  3. 3 michel fevereiro 12, 2010 às 11:59 pm

    cara seus posts são muito bem feitos
    deve dar um trabalho f*!
    sou fã do cd do @emicida mas nunca tinha escutado ele numa “batalha”
    mas pelo cd já dava pra perceber que ele veio dessas
    parabéns pelo post!

    • 4 Dewis Caldas fevereiro 13, 2010 às 8:18 pm

      As vezes dá um trabalhinho mesmo, Michel, rs. Mas é legal escrever sobre os artistas que valem a pena no nosso país. Daqui a pouco o Jota Quest vai lançar um Cd, aí a rádio, a tv, a internet vão executar tanto que você não tem como não deixar de ver. isso é pior.

  4. 5 Vitor Torres fevereiro 13, 2010 às 3:01 am

    emicida vem de homicida de mc´s. O cara apavora nas batalhas.
    Parabéns pelo post!

    =]

  5. 6 Andres Leal fevereiro 13, 2010 às 4:21 am

    EMICIDA ;e FODA
    bom p caraleooo

  6. 7 Dewis Caldas fevereiro 13, 2010 às 7:57 pm

    É isso mesmo, Gabriel Lucas, só o fato dele tocar dois tipos de “musica” já abrange bem o seu público. Se o primeiro disco dele já vêmos temas como “guerra urbana” e “família” percebo que os próximos discos serão ainda mais versáteis, pode esperar.

  7. 8 Dewis Caldas fevereiro 13, 2010 às 8:04 pm

    Olá Giovanna, ue bom que gostou. Não estou inserido totalmente na cena “Rap” brasileira e gostaria de ter mais informações cruciais para explicar a inserção do EMICIDA no mercado brasileiro. Você está certa em discordar do que disse naquele ponto, só usei o “mas tudo tem seu preço, o tudo por 100 real ficou estranho” porque é uma frase que pertenca a uma de suas musicas. E no mais, a idéia era ser irônico, na tentativa dele não ser vender para o mercado. Se isso acontecer, sua sobreviida como artista vai durar três anos. Depos, esquece. (Cadê o detonautas?)

  8. 10 luana outubro 6, 2010 às 11:35 pm

    BANDA LEGAL BJSSSSSSS!!!


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